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Pipocam nas redes sociais iniciativas de restaurantes que oferecem porções reduzidas para usuários do medicamento semaglutida. O objetivo dessas refeições, divulgadas como “rodízio Mounjaro”, seria oferecer uma experiência personalizada àqueles que tiveram o apetite reduzido pelo uso da substância e diminuir o desperdício de comida.
Em nota, a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), afirma que o uso desses medicamentos já causa mudanças na dinâmica de estabelecimentos comerciais, concentrado nas classes A e B, com tendência a ganho de escala nos próximos anos.
Segundo a associação, podem ser observados aumento do compartilhamento de pratos, além de redução no consumo de bebidas alcoólicas. “Bares e restaurantes vêm promovendo ajustes em seus modelos de negócio. Há revisões de preços em formatos como rodízios de carnes e pizzas, maior flexibilidade em relação ao compartilhamento de pratos e leitura mais atenta do comportamento do cliente à mesa”, diz a nota.
A psicóloga Vanessa Tomasini, especialista em Transtornos Alimentares, diz que esse tipo de iniciativa pode gerar constrangimentos na própria dinâmica do restaurante, por exemplo, se um garçom sugerir a um cliente que peça o rodízio reduzido com base em julgamentos.
Para Táki Cordás, coordenador do Ambulim, a oferta também pode criar a ideia de que todos devem optar pelo cardápio reduzido “para parecerem elegantes ou preocupados com a saúde do corpo”. Além disso, o especialista aponta a banalização da medicação, útil nos tratamentos de diabetes e obesidade.
De acordo com ele, são drogas revolucionárias do ponto de vista desses diagnósticos. “É um tratamento de longo prazo, que não deve ser usado para fins estéticos”, diz. O especialista diz haver discussão sobre se o tratamento com semaglutida deve ser contínuo ao longo da vida, como remédios para hipertensão ou a insulina, para diabetes.
Para ele, o uso indiscriminado com o único objetivo de perder peso se assemelha à busca sem prescrição por outros medicamentos, como fármacos psiquiátricos usados no tratamento de TDAH, por exemplo. Embora alguns profissionais de saúde recomendem medicamentos GLP-1 para emagrecimento, seu uso não deve partir de uma preocupação estética.
A psicóloga Vanessa Tomasini, que atua há mais de 20 anos com pacientes com transtornos alimentares, alerta ainda que os sinais e sintomas dessas doenças se modificam conforme o contexto social e político. A maneira como a sociedade lida com o corpo e com a comida, também atravessadas por modismos –das passarelas aos hábitos de consumo–, pode impactar no desenvolvimento ou aprofundamento dessas doenças, que são multifatoriais.
Para a nutricionista e neurocientista Sophie Deram, a prática revela uma tentativa de restaurantes e clientes encontrarem um “meio termo” em relação ao preço e porções. Ela, entretanto, vê com preocupação a diminuição do apetite causada pelo medicamento. “O prazer em comer é essencial para uma relação saudável com a comida. Com a inibição artificial do apetite, perde-se o contato com os sinais de fome e saciedade”, explica a coordenadora do projeto de Genética dos Transtornos Alimentares do Ambulim.
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