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Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Viena, intitulado Real-world insights into incretin-based therapy (perspectivas do mundo real sobre a terapia com incretinas), analisou como medicamentos para obesidade que atuam no sistema incretínico —mecanismo de ação de hormônios intestinais como GLP-1 e GIP— afetam não apenas o peso, mas também a percepção de sabores e o apetite.
A pesquisa, feita com 411 pessoas em tratamento, mostra que os efeitos vão além da balança e podem atingir os sentidos. Segundo os dados, pacientes em uso dessas terapias relataram uma perda de peso em torno de 15% a 18% do peso corporal, números próximos aos observados em ensaios clínicos controlados.
Mais da metade dos entrevistados disse sentir menos apetite e cerca de dois terços relataram atingir a saciedade mais rapidamente. Além disso, mudanças no paladar foram frequentes: 21% disseram perceber o sabor doce de forma mais intensa e 23% notaram o mesmo com o salgado.
A médica Fernanda Parra, especializada no tratamento de obesidade, explica que há pacientes que relatam mudanças no paladar, “especialmente redução do desejo por doces e alimentos mais gordurosos”. Ela cita que essa mudança não ocorre com todos que usam esses medicamentos mas pode favorecer a adesão, considerando que “o paciente sente que naturalmente tem menos compulsão ou menos vontade de determinados alimentos”, algo comprovado no levantamento.
Segundo a pesquisa, essas alterações sensoriais parecem estar associadas ao próprio efeito dos medicamentos sobre o comportamento alimentar. “O estudo mostra que a alteração do paladar não necessariamente gera maior perda de peso, sugerindo que o impacto pode ser mais no comportamento alimentar do que no metabolismo em si”, complementa a médica.
A endocrinologista afirma ainda que, do ponto de vista clínico, esses efeitos têm grande relevância, já que a modulação do desejo promove uma melhor seleção alimentar, uma ingestão quantitativamente menor e uma melhora no controle inibitório do paciente.
Os efeitos colaterais relatados foram semelhantes aos já conhecidos, como náusea, vômito, constipação e dor de cabeça, sendo este último mais comum entre usuários de semaglutida na dose usada para obesidade. A médica cita que tais sintomas “têm peso clínico maior, pois podem limitar a continuidade do tratamento”.
Já as alterações de paladar funcionam como moduladores sutis que apoiam o processo de mudança alimentar. “Portanto, na prática, damos prioridade ao manejo dos sintomas digestivos, mas não devemos subestimar o papel das mudanças sensoriais como aliados no processo de adesão e reeducação alimentar”.
Os autores ainda ressaltam que o estudo é baseado em questionário online e que os resultados precisam ser confirmados por pesquisas mais longas.