Regra sobre saúde mental no trabalho estimula consultoria – 30/09/2025 – Equilíbrio

As empresas no país enfrentam atualmente o desafio de se adaptar a regras que as obrigam ao cuidado da saúde mental de seus funcionários. Elas estão na nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entra em vigor em maio de 2026. A fim de cumpri-la, empresas buscam consultorias para estruturar políticas de saúde mental.

O resultado, porém, é irregular. É o que dizem profissionais de saúde laboral ouvidos pela Folha. Enquanto algumas empresas oferecem programas bem fundamentados, outras se limitam a ações superficiais, com pouco embasamento técnico.

A norma relaciona espaço físico, condições de trabalho e relações sociais a riscos psicossociais, como estresse, assédio moral e sobrecarga. O objetivo é garantir um ambiente seguro e prevenir adoecimento mental.

Segundo dados do Ministério da Previdência, entre janeiro e junho de 2025, ao menos 6.000 trabalhadores se afastaram de suas funções por problemas de saúde mental e receberam benefício temporário do INSS. Esse número já representa 62% de todos os benefícios concedidos pelo mesmo motivo ao longo de todo o ano passado.

Numa tentativa de abordar a questão, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) atualizou em 2024 a NR-1 para que ela passasse a contemplar os riscos psicossociais no ambiente laboral. As empresas pediram tempo para adaptação e, assim, até o prazo acordado, estão em adequação socioeducativa, durante o qual não sofrerão as multas previstas na norma.

Especialistas alertam que, sem uma abordagem sólida por parte das consultorias contratadas, os riscos podem permanecer após a vigência da NR-1.

Antes de 2024, os riscos psicossociais eram considerados de forma indireta na Norma Regulamentadora nº 17 (NR-17). Ela compreende que o ambiente físico e as condições de trabalho afetam a saúde do trabalhador, mas não traz um regulamento específico para saúde mental.

“Muitos fiscais não estavam atentos ao tema, porque, quando se fala em ergonomia, eles pensam logo em riscos físicos, postura e repetitividade. Mas como separar o corpo da mente? Tem como?”, questiona Luiza Melo, consultora e assistente técnica em perícias ergonômicas.

O MTE divulgou neste ano um guia para a implementação da NR-1. Segundo as recomendações é necessário identificar os grupos homogêneos de exposição, reunindo trabalhadores que enfrentam condições parecidas na empresa. A partir daí, esses grupos são avaliados por meio de entrevistas, formulários ou questionários, e os dados coletados são analisados para interpretação de resultados. O foco não é o relato individual, mas obter uma amostra que retrate a realidade do grupo.

O processo analisa como o trabalho é organizado e acontece, de fato, no dia a dia. Isso envolve observar a jornada de trabalho, o ritmo das atividades, a forma como os turnos e folgas são distribuídos e o uso de horas extras. Também é importante comparar o que está previsto nas normas internas da empresa com a prática. Luisa Melo explica que a análise deve integrar aspectos físicos e mentais, de forma a atender tanto à NR-1 quanto à NR-17.

O MTE fornece o guia, mas não determina um caminho específico para a implementação da norma. Cabe às empresas escolherem a metodologia. Profissionais da saúde laboral apontam que nem sempre as consultorias seguem métodos consistentes.

“Está todo mundo surfando nessa onda da NR-1 e vendendo serviços rápidos, sem realmente atacar a causa raiz do problema. Há muita consultoria oferecendo avaliações equivocadas, reduzindo o risco psicossocial a uma análise individual”, destaca Melo. Para ela, isso ocasiona soluções rasas.

Ingrid Betty, psicóloga pós-graduada em psicologia organizacional e do trabalho, também alerta para a adoção de indicadores superficiais na avaliação do ambiente empresarial.

“De repente surge um monte de gente que se considera especialista e acha que basta montar uma planilha de Excel. Quando falamos de riscos psicossociais atrelados ao trabalho, não dá para tratar de forma simplista, como se fosse uma contaminação por resíduo químico”.

DIFICULDADES PRÁTICAS

O investimento financeiro para preparar questionários, entrevistas e formulários é, na visão de Betty, o principal desafio na implementação da norma. Outra dificuldade, ainda segundo a psicóloga, está na coleta interna de dados, pois profissionais da própria organização podem enfrentar conflitos ao entrevistar colegas. Isso explica a busca por serviços externos especializados, nem sempre eficazes.

“Muitas consultorias se limitam ao mapeamento de riscos, mas, para mudar a realidade, é preciso diagnosticar e implementar intervenções, que às vezes envolvem alterações na cultura organizacional e decisões estratégicas da empresa.”

Betty também ressalta que a NR-1 vale apenas para trabalhadores formais regidos pela CLT, que são cerca de 38% da população profissional, enquanto 25% trabalham por conta própria.

Uma das iniciativas que a psicóloga acompanha é a de uma empresa do setor automobilístico, que implementou uma brigada psicológica nos turnos de trabalho.

Para Betty, a medida vai além do mapeamento de riscos. Trata-se de uma intervenção direta, oferecendo primeiros socorros emocionais para os funcionários em situações de crise, como ataques de ansiedade ou desequilíbrios emocionais. “A gente ainda não sabe como ofertar, enquanto sociedade, os primeiros cuidados psicológicos”. Ela diz, porém, que a Organização Mundial de Saúde já conta com um documento sobre o tema. “Então a gente já tem evidências técnicas e científicas para conseguir treinar e capacitar.”

Segundo Betty, a companhia já contava com uma psicóloga na equipe ambulatorial, o que facilita a implementação da brigada Embora seja um caso isolado, diz, o projeto poderia servir de modelo para outras empresas.

Esta reportagem foi produzida durante o 10º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha, patrocinado pelo Laboratório Roche e pelo Einstein Hospital Israelita.

Autoria: FLSP

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