Por que não consigo deixar mensagens sem respostas – 29/09/2025 – Vida de Alcoólatra

Na ativa eu deixava muitas pessoas na mão. Não conseguia cumprir nenhum compromisso, apesar de confirmar presença. Ou eu estava muito entorpecida para lembrar de qualquer coisa que havia marcado ou estava muito desanimada e achava que ninguém ia se importar com minha ausência.

Bem, depois de algum tempo, minha fama era de que não adiantaria me convidar para nada porque eu não iria. Até hoje, quando digo que vou a algum lugar, muitas amigas duvidam. E, no fundo, eu entendo: eu mesma não confiaria em alguém com o meu passado.

É por isso, talvez, que hoje em dia eu não consigo deixar nenhuma mensagem por responder. É quase um mecanismo de compensação, uma tentativa desesperada de provar que mudei. E isso é complicado, pois o celular está sempre em alerta para eu poder responder assim que me chamam. Não importa o que eu esteja fazendo, eu vou responder.

Cheguei a interromper conversas para abrir a mensagem, já deixei meu chefe falando sozinho e, mesmo em compromissos importantíssimos, eu vou lá e abro a mensagem. É um impulso automático, como se cada notificação fosse uma oportunidade de mostrar que estou presente. Mas essa urgência cobra um preço: fico sempre dividida, nunca estou inteira.

Essa semana aconteceu isso. Eu estava com meu chefe em uma gravação e uma amiga começou a me chamar. Eu não fiquei direito nem na gravação, nem nas mensagens. E o assunto de ambos, no trabalho e na mensagem da amiga, era sério. Eu tentava estar nas duas situações ao mesmo tempo, mas é impossível estar presente em dois lugares com a mesma atenção. No fim, acabei falhando nos dois lados: fisicamente estava na gravação, mas emocionalmente tentava estar com minha amiga. E, no entanto, parecia que eu não estava em nenhum lugar.

A gravação acabou dando certo, mas com minha amiga foi uma tragédia. Brigamos feio porque não tive a paciência e o carinho que deveria ter. Escrevi rápido, sem pensar, com aquele tom seco que a pressa traz, e ela se magoou. E agora parece irreversível: ela não quer mais falar comigo. Fiquei triste, passei parte da semana me culpando e pedindo desculpas a ela. Nada adiantou. É doloroso perceber que, às vezes, mesmo depois de mudar, os erros continuam acontecendo —só que em outra forma, com outra cara.

Se fosse na ativa, eu já iria inventar alguma coisa séria para ela me desculpar. Tipo: “Me desculpa, minha mãe está muito doente e eu não estou com a cabeça boa”. Ou: “Descobri que estou com uma doença muito grave”. Era sempre assim. Para eu sair bem, eu piorava o cenário e era inevitavelmente desculpada. Criava histórias para parecer vítima, para justificar minha falta. Hoje, não. Aceito que fui displicente e simplesmente aceito que ela não vai falar comigo tão cedo.

E ainda eu não sei se vou conseguir reconstruir essa amizade, mas sei que esse episódio me mostrou uma parte de mim que eu ainda não tinha visto. Uma parte que, apesar de querer muito acertar, ainda tropeça. E tudo bem. A vida também é isso: reconhecer os tropeços sem se esconder atrás de desculpas inventadas.


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Autoria: FLSP

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