“Desde 2022, eu durmo com barulho e acordo com barulho“, conta Helder Sampedro, 39. Há pouco mais de três anos, ele, o irmão e dois cachorros tiveram a paz interrompida. Um prédio residencial de 25 andares começou a ser construído praticamente parede com parede atrás da casa onde moram há 15 anos no Brás, região central de São Paulo.
“Quando me mudei para cá, fiquei dez anos tranquilo. Agora, vou ter uma centena de pessoas morando literalmente em cima da minha cabeça”.
Assim como Helder, vizinhos de outras dezenas de obras lançadas em São Paulo devem enfrentar uma rotina exaustiva de barulho e poeira causados pela construção de novos prédios nos próximos dois ou três anos. A cidade de São Paulo tem 1.855 empreendimentos ativos, destes, 1.003 estão em construção, segundo levantamento da Brain Inteligência Estratégica.
Somente no primeiro semestre de 2025, foram lançados 61,1 mil apartamentos na cidade de São Paulo. Os bairros Campo Grande (4.215), Vila Mariana (3.881) e Lapa (3.315) lideram a lista, segundo levantamento da Secovi-SP (Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo). No Brás, onde moram os irmãos, 725 unidades foram lançadas nesse período.
“Parece que o cidadão se tornou um refém dessas construções e não tem mais nenhum lugar que você vá que não tenha barulho, sujeira, transtorno, incômodo”, afirma Jaison Sampedro, 41, irmão de Helder.
“É quase como se te sequestrassem e colocassem em cárcere privado, sendo torturado o dia todo com barulho de obra. É uma situação horrível.”
Os irmãos contam que a sujeira constante obrigou os dois a aumentar a frequência de limpezas, um transtorno diário, além de sentirem os efeitos físicos da poeira, como pele ressecada.
Luciano Gregório, otorrinolaringologista do Einstein Hospital Israelita, afirma que a poeira das obras pode causar ou agravar rinite alérgica, com sintomas incômodos e risco aumentado de outras doenças respiratórias.
“O pó dos materiais das obras, como cimento, gesso e madeira, por terem um pH diferente, são considerados um corpo estranho. Quando entram pela via área, acabam desencadeando uma inflamação, que pode causar reações alérgicas ou irritativas, com sintomas como nariz entupido, coceira, irritação nasal e espirros frequentes”, explica.
O otorrino faz um alerta para o risco auditivo devido à exposição contínua a ruídos altos, que também podem agravar problemas de equilíbrio e labirintite.
Esses ruídos danificam principalmente as células sensoriais do ouvido interno, que são responsáveis por captar as frequências sonoras e transmitir as informações ao cérebro. Como resultado, a percepção de sons agudos começa a ser afetada, caracterizando a PAIR (perda auditiva induzida por ruído).
Além dos impactos físicos, a convivência diária com a construção trouxe um desgaste mental para os irmãos Sampedro.
Ao longo dos anos, a rotina da obra era religiosa, de segunda a sábado. “Os funcionários chegam lá pelas 6h30 e já começam a usar umas ferramentas barulhentas, e seguem até umas 18h. Por volta de 23h, meia-noite, chegam os caminhões para retirar os entulhos e as caçambas”, conta Helder.
Você chega em casa para descansar e torce para não ter barulho ou caminhões retirando material. No final da semana, você está irritado e mal-humorado. Uma simples buzinara já é a gota d’água para tirar sua paz
Os cachorros, Mutreta, de 11 anos, e Capote, de 8, também sentiram o impacto: ficaram mais ansiosos e nervosos. “Eles não eram de estragar nada, dificilmente mordiam alguma coisa. Mas quando começaram as obras, o comportamento deles mudou”, afirma Helder.
Elton Kanomata, psiquiatra do Einstein, explica que a exposição prolongada a ruídos altos e constantes, como os gerados por grandes obras, eleva os níveis de estresse, irritabilidade e ansiedade, provocando alterações de humor, comportamento e cognição, com impactos nas relações interpessoais.
“Alguns sinais que podem indicar um prejuízo a saúde mental são desânimo, inquietude, dificuldade de concentração, falhas de memória, insônia e sensação de esgotamento físico e mental. Além disso, há sintomas físicos, como cefaleia frequente, tensão e dores musculares, refluxo gastroesofágico, gastrite, alterações do hábito intestinal, queda de cabelo, unhas quebradiças, redução da imunidade, entre vários outros sinais decorrentes do estresse”, explica Kanomata.
Segundo o médico, mesmo com as obras parando à noite, o sono continua comprometido pelo estresse acumulado. Isso pode levar a transtornos como depressão e ansiedade, criando um ciclo que dificulta o tratamento.
Para proteger a saúde de quem mora ou trabalha próximo a obras, o otorrino recomenda lavar o nariz com soro fisiológico diariamente, para acalmar a mucosa e eliminar partículas irritantes. O uso de máscaras do tipo FFP2 ou FFP3 é indicado para bloquear a poeira presente no ambiente.
Além disso, é importante utilizar protetores auriculares, como tampões ou abafadores, para reduzir a exposição ao ruído, principalmente na hora de dormir.
“Seguindo essas orientações, é possível prevenir até 80% dos problemas respiratórios e auditivos mais comuns decorrentes dessa exposição”, diz Gregório.
Diante de sintomas como estresse, ansiedade, irritabilidade ou dificuldades de sono, o psiquiatra recomenda que moradores busquem acompanhamento profissional com psicólogos ou psiquiatras.
“O processo psicoterápico pode contribuir para a redução dos níveis de ansiedade e estresse, tanto por oferecer à pessoa um espaço e um profissional que acolham suas queixas, quanto por ensinar técnicas de respiração, relaxamento e práticas meditativas que promovem o bem-estar emocional”, diz Kanomata.