Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124
Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124

Quando Robert F. Kennedy Jr. tomou posse como secretário de saúde no ano passado, ele prometeu melhorar o bem-estar dos americanos. Agora, ele e outros em seu círculo do “Make America Healthy Again” (faça a américa saudável de novo) estão tentando cumprir essa promessa reescrevendo as diretrizes alimentares para americanos, a orientação oficial do governo sobre o que comer e beber para uma boa saúde.
As diretrizes, atualizadas a cada cinco anos, não mudaram muito em substância desde que foram publicadas pela primeira vez em 1980.
Mas Kennedy sugeriu que a nova versão —esperada para os próximos dias— será radicalmente diferente, com recomendações revisadas sobre carne, laticínios e gorduras saturadas, preocupando alguns pesquisadores de nutrição.
As diretrizes são uma ferramenta de saúde pública, destinadas a traduzir evidências científicas sobre dieta e saúde em conselhos práticos.
Elas nos dizem quantas frutas e vegetais consumir todos os dias, se devemos cozinhar com óleos vegetais ou manteiga, o que comer para obter proteína suficiente e mais. Há também orientações para pessoas em várias fases da vida, como quanto de cafeína é seguro para mulheres grávidas, quando os bebês devem começar a comer alimentos sólidos e quais suplementos os adultos mais velhos podem precisar.
A cada cinco anos, funcionários dos departamentos de Agricultura e Saúde e Serviços Humanos revisam as diretrizes para refletir as mais recentes descobertas científicas em nutrição. Elas são tipicamente publicadas em um documento longo e denso, escrito para profissionais, incluindo formuladores de políticas, funcionários de programas federais de alimentação e prestadores de cuidados de saúde, como médicos, enfermeiros e nutricionistas.
A pessoa comum provavelmente não pensa sobre as diretrizes alimentares, diz Marion Nestle, professora emérita de nutrição, estudos alimentares e saúde pública da Universidade de Nova York. Mas elas afetam milhões de pessoas todos os dias.
Elas ajudam a determinar o que está nos cardápios de creches, escolas e refeitórios militares. Influenciam os alimentos oferecidos em programas que fornecem refeições ou mantimentos gratuitos, como para idosos com problemas de mobilidade ou mulheres e crianças de baixa renda.
Também moldam os currículos de nutrição nas escolas e centros comunitários, e os conselhos que médicos e outros profissionais de saúde fornecem.
Alguns anos antes das diretrizes serem atualizadas, funcionários federais normalmente nomeiam um grupo de cientistas de nutrição de instituições acadêmicas e de pesquisa para revisar as evidências científicas sobre o que comer para uma boa saúde. Esse comitê compila um resumo de suas recomendações para que funcionários federais usem para escrever as novas diretrizes.
O processo desta vez começou de maneira típica —um comitê científico conduziu sua revisão em 2023 e 2024 e emitiu um relatório em dezembro de 2024. Mas Kennedy criticou o relatório vários meses após sua apresentação, dizendo que era muito longo e alegando, sem evidências, que foi influenciado pela indústria alimentícia e, portanto, comprometido.
Ter um secretário de saúde atacando publicamente o trabalho do comitê científico é “totalmente sem precedentes”, diz Kevin Klatt, professor assistente de ciências nutricionais da Universidade de Toronto.
Kennedy está supervisionando a atualização das diretrizes, mas não está claro se especialistas qualificados estão aconselhando-o, ou como estão avaliando evidências científicas, diz Walter Willett, professor de epidemiologia e nutrição da Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard.
Especialistas em nutrição disseram que estariam examinando minuciosamente as recomendações sobre carne vermelha, laticínios, gorduras saturadas, alimentos ultraprocessados e álcool, porque acreditam que essas áreas podem se desviar das edições anteriores.
Nos últimos meses, Kennedy e Brooke Rollins, a secretária de agricultura, sugeriram que as novas diretrizes recomendariam consumir mais carne vermelha —em particular, carne bovina.
Kennedy também disse que as novas diretrizes podem incentivar o consumo de gorduras saturadas, um tipo de gordura encontrada não apenas em carnes vermelhas e processadas como carne bovina, bacon e salsichas, mas também em produtos lácteos e certas gorduras de cozinha como manteiga, óleo de coco e sebo bovino. Ele disse que as diretrizes “elevariam” produtos lácteos integrais como leite integral e queijo, que são ricos em gorduras saturadas.
Os especialistas também estarão atentos se as diretrizes recomendam limitar ou até evitar alimentos ultraprocessados, que têm sido associados a problemas de saúde como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos tipos de condições gastrointestinais e cânceres.
E estarão observando o que as diretrizes dizem sobre álcool, dadas as evidências recentes de que nenhuma quantidade de bebida é segura para a saúde. O consumo de álcool é uma das principais causas de doenças crônicas nos Estados Unidos, diz Katherine M. Keyes, professora de epidemiologia da Universidade Columbia. Segundo ela, beber menos melhoraria a saúde das pessoas.
Algumas mudanças seriam bem-vindas, dizem os especialistas, e outras não. Comer mais carne vermelha não melhoraria a saúde dos americanos, diz Nestle. Pesquisadores descobriram que pessoas que comem muita carne vermelha e processada têm maiores riscos de desenvolver condições como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e câncer colorretal. O comitê científico havia aconselhado que as novas diretrizes recomendassem substituir carnes vermelhas e processadas por mais fontes vegetais de proteína, como feijões, ervilhas e lentilhas.
Os americanos já estão comendo carne vermelha suficiente, diz Dariush Mozaffarian, cardiologista e diretor do Instituto Food Is Medicine da Universidade Tufts. Embora o consumo ocasional seja aceitável, acrescentou, a carne vermelha não deveria receber uma “aura de saúde imerecida”.
Também não há evidências de que consumir mais gordura saturada beneficiaria a saúde, diz Klatt. Na verdade, consumir demais poderia aumentar o risco de desenvolver colesterol alto e doenças cardiovasculares.
Muitos especialistas apoiariam mudanças que recomendam comer menos alimentos ultraprocessados. Mas Willett disse que as diretrizes deveriam enfatizar a limitação dos alimentos ultraprocessados mais prejudiciais —como bebidas açucaradas, carnes processadas e aqueles feitos principalmente com grãos refinados— e deixar claro que alguns alimentos ultraprocessados, como pães e cereais integrais, podem ser escolhas saudáveis.