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Maira Caleffi, fundadora da Femama (Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama) e presidente do conselho do IGCC (Instituto de Governança e Controle do Câncer) acredita que as soluções para o câncer devem ser locais, apesar de a questão ser global.
Com um olhar mais amplo para o câncer no geral, seu objetivo no IGCC é implementar políticas com os gestores dos serviços, ligado ao City Cancer Challenge, uma organização independente situada em Genebra, na Suiça, que conecta parceiros e cidades. Assim, o objetivo é formar uma comunidade global para viabilizar soluções sustentáveis para o câncer.
“É um conector para implementar projetos e políticas. Diferente do que é um grupo de pacientes, diferente do que é uma empresa, por exemplo, que às vezes não tem acesso ao gestor. A gente vai lá para o gestor e oferece ajuda”, diz.
Para tal, uma das iniciativas do Instituto vai ser utilizar uma plataforma desenvolvida também com a participação de Maira, o Prisma Mama. Ela conta que a o projeto foi desenvolvida em parceria com mais sete especialistas, e reúne três registros de câncer públicos em um único, aberto, facilitando o acesso a esses dados.
Outra bandeira levantada pela médica é a do rastramento genético do câncer de mama. Uma das maiores lutas da Femama hoje, segundo ela, é a implementação da testagem genética para o câncer de mama para pacientes com risco de mutação patogênica em BRCA1 ou BRCA2 no SUS. A organização tem atuado em discussões com a Conitec, órgão responsável por avaliar e aprovar a implementação de novas tecnologias na saúde pública brasileira.
No dia 10 de setembro, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou o Projeto de Lei 5.181/2023, que assegura a testagem genética para mulheres com alto risco de câncer de mama. O projeto agora segue para votação na Câmara dos Deputados.
Ela teve contato com a questão durante o seu doutorado na Universidade de Londres sobre cânceres hormonais, o que a levou a um pós-doutorado, no início da década de 1990, em biologia molecular e genética do câncer na Universidade Vanderbilt, nos EUA.
Lá, Caleffi começou a frequentar congressos mundiais e um evento específico, em San Antonio, mudou a sua perspectiva. “Mostraram uma tabela da sobrevida de pacientes nos últimos 20 anos, que mostrava que, a partir de um determinado momento, a mortalidade —que sempre subia— começou a descer “, lembra.
O motivo em questão era uma pessoa: Nancy Reagan, primeira-dama dos EUA entre 1981 e 1989. Ela havia recebido o diagnóstico de câncer de mama em 1987 e decidiu ser aberta com a população sobre a sua condição e a importância do exame de mamografia. A postura da então primeira-dama acendeu o debate sobre o diagnóstico precoce e a conscientização da população.
Um estudo publicado em 1998 na JAMA Network concluiu que a campanha de Reagan influenciou no aumento da procura pelo exame e tratamento de câncer de mama na época. Esse caso mostra que a campanha pelo diagnóstico precoce e tratamento tem um impacto no prognóstico da doença.
Diante desse cenário, ela fundou o Instituto da Mama do Rio Grande do Sul, com apoio psicológico e letramento sobre o câncer para as mulheres que necessitavam. Nos anos 2000, a organização recebeu o título de OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público).
Em 2006, criou a federação que reunia diferentes organizações, unindo recursos e com o objetivo de formar uma única voz, mais potente: a Femama. Logo no início, a federação focava três eixos, aumentar a cobertura e o rastreamento e limitar o tempo para o diagnóstico.
Seis anos depois, foi aprovada a Lei dos 60 dias (Lei n° 12.732/2012), que estabelece que pacientes com câncer do SUS (Sistema Único de Saúde) devem iniciar o tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Essa lei não é apenas para o câncer de mama, mas todos os tipos da doença.
Para ela, o ideal seriam 30 dias, algo que deve ser batalhado para ser colocado em prática. Outras questões em que ela diz acreditar que valem a pena investir nesse momento são a notificação compulsória, ou seja, saber onde os pacientes estão localizados.
Depois de 19 anos à frente da Femama como fundadora e presidente, Maira deixa a cadeira. “No dia final de novembro, eu entrego o cargo para o meu sucessor, que já está eleito, que é o doutor Luiz Ayrton. Saio para o conselho de administração, não vou me afastar nunca.”
Além do seu recente envolvimento com o IGCC, Caleffi também é chefe do serviço de mastologia do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Lá, ela realiza um trabalho que garante o tratamento das pacientes onze dias após o diagnóstico e 93% de sobrevida em cinco anos. Esses resultados a fizeram refletir sobre a relação entre a qualidade e acesso ao tratamento e os níveis de mortalidade.