Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124
Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124

Eduarda Fernandes, 26, estava casada havia um mês quando descobriu que estava grávida. “Brinquei que foi o presente de casamento de Deus para mim”, conta a advogada de Volta Redonda (RJ). No ultrassom, porém, não havia batimentos. Ouviu do médico que era um aborto retido: a gestação não estava evoluindo e precisaria ser interrompida.
Foi encaminhada a um hospital da rede privada, onde faria uma aspiração manual intrauterina (Amiu). Eduarda relata que já estava de avental e acesso na veia, esperando o procedimento, quando recebeu negativa do plano de saúde e foi enviada para casa.
Segundo o médico especialista em reprodução Sérgio Gonçalves, da clínica Mater Prime, o aborto retido ocorre quando o embrião para de se desenvolver, mas não há sintomas de abortamento, como sangramento ou contrações. “O colo do útero está fechado e o aborto está lá dentro, ele não está sendo eliminado”, explica.
“Nestes casos, há duas condutas possíveis: a expectante, que é aguardar o organismo eliminar o aborto, e a ativa, que é fazer curetagem ou Amiu”, diz o médico. Segundo ele, enviar a paciente para esperar em casa, a chamada conduta expectante, não é errada, mas deve ser discutida entre médico e gestante.
Uma norma técnica do Ministério da Saúde de 2005 de Atenção Humanizada ao Abortamento recomenda que o aborto retido seja tratado com “misoprostol ou, quando o tamanho uterino corresponder à gestação com menos de 12 semanas, pode-se empregar a técnica de aspiração manual intrauterina”.
“Eu pensava: ‘só quero resolver'”, conta Eduarda. Ela conseguiu fazer o procedimento em um hospital municipal e está processando o plano de saúde Amil. Pede danos morais e materiais. Procurado pela reportagem, o plano de saúde diz que Eduarda estava em período de carência e que o procedimento não era urgente.
A Amil afirma que o processo ainda não teve sentença. Diz ainda que, à época, a beneficiária estava com o seu contrato ativo havia oito dias e que se tratava de um procedimento eletivo, dentro de um contexto regular para o cumprimento de carência conforme definido em contrato.
Os riscos e benefícios de cada conduta devem ser explicados para a paciente que, munida de informação, poderá fazer a escolha mais adequada, diz Gonçalves. Segundo ele, há quem opte pela conduta expectante. “A vantagem é que, na maioria das vezes, não precisa de internação, de se submeter a um risco anestésico e a eventuais complicações dos procedimentos.”
“Porém, como o nome já diz, a conduta expectante requer esperar. E isso pode ser uma tortura psicológica para algumas mulheres”, diz. “Já vi pacientes passarem de um mês com o aborto retido e o organismo não eliminar ou eliminar parcialmente. E aí precisam fazer a curetagem do mesmo jeito. Em alguns casos, a eliminação cursa com muita dor.”
Foi o que aconteceu com Mariana (nome fictício), 33. Após receber o diagnóstico de aborto retido, em 2021, ela foi ao pronto-socorro obstétrico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e pediu a interrupção. Foi enviada para casa. “Esperei um mês com o embrião morto dentro de mim, chorando todo dia. Quando começou a expulsão, fiquei seis horas tendo contrações e sangrando muito. No fim, tive que fazer a curetagem assim mesmo”, relata.
Gonçalves diz que o ideal é que a equipe de plantão agende o procedimento para outro dia. “Muitas vezes, o plantão está movimentado e o médico decide pela conduta expectante sem dar as opções. A paciente sente muito essa falta de informação, sai de lá desamparada. Receber esse diagnóstico já é um luto. O amparo não é só fazer a curetagem imediatamente, mas ter alguém que dê atenção, explique. E não: ‘vai para casa e espera um mês’. Isso é muito desgastante emocionalmente.”
A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo afirma que “assegura atendimento humanizado, com respeito aos princípios éticos, legais e bioéticos, priorizando o acolhimento e o cuidado com a saúde física e emocional das mulheres, garantindo direito à informação, autonomia e escolha informada, conforme diretrizes da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e do Ministério da Saúde. A escolha do tratamento é compartilhada com a paciente.”
Em 2022, a funcionária pública Jeanne Batista, 28, descobriu via ultrassom que sua gravidez não estava evoluindo. Foi à emergência do Hospital Adão Pereira Nunes, o Saracuruna, em Duque de Caxias (RJ), onde diz ter sofrido violência obstétrica.
“Parece que alguns médicos têm raiva de grávida”, diz Jeanne. “Ainda me emociono ao falar. Fizeram o toque e viram que o embrião não estava saindo. Introduziram o remédio e enfiaram a mão dentro de mim para puxar.”
Em 2023, ela teve outro aborto retido e foi à Maternidade Santa Cruz da Serra, também sob gestão municipal de Duque de Caxias. “Foi pior ainda”, conta. “O médico introduziu uma mão em mim e, com a outra, empurrava minha barriga para baixo. Tenho trauma até hoje desse doutor e do terror que eu passei. Gritava que estava doendo e ele dizia: ‘mas tem que tirar’. Minha mãe estava do meu lado, ela falava: ‘isso não se faz.'”
A Prefeitura de Duque de Caxias foi procurada pela reportagem, mas afirma que faltam dados sobre o caso em questão para responder.
Ariane Victor, 32, de Porto Alegre (RS), teve um aborto retido em janeiro deste ano. O médico particular a orientou pela conduta expectante. “Ele disse que a curetagem não é aconselhável ou que ele não aconselhava, não lembro. Me explicou que poderia levar até 40 dias para o corpo expelir e se passasse disso poderia infeccionar. Fiquei quatro dias expelindo”, relata.