Como a dopamina age no sistema de recompensa e motivação – 07/10/2025 – Equilíbrio

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O cérebro funciona como uma gigante rede de comunicação. Nela, os neurotransmissores atuam como mensageiros entre os neurônios. Um desses mensageiros é a dopamina, que virou tema de livros, artigos e postagens em redes sociais —e passou a ser taxada como a responsável por muitos comportamentos considerados prejudiciais no cotidiano.

Mas não é bem assim. Seria simplista demais rotular a dopamina como vilã ou heroína. Ela é uma das substâncias químicas mais importantes para o cérebro, vital para a sobrevivência, e também influencia o comportamento humano.

Entenda: os neurotransmissores carregam sinais que podem ativar, inibir ou modular a atividade de outros neurônios, influenciando funções como movimento, sensibilidade, memória, emoções, sono e muitas outras, explica o neurologista Alex Baeta.

A dopamina é um neurotransmissor que influencia diretamente nosso comportamento, motivação e bem-estar. Veja suas principais funções:

1. Controle motor: ela é fundamental para a coordenação dos movimentos. “É como se fosse o combustível do carro. Sem ela, você fica lento, rígido”, diz o neurologista Rubens Cury, coordenador do ambulatório de neuromodulação e distúrbios do movimento e Parkinson do Hospital das Clínicas da USP.

A doença de Parkinson, por exemplo, leva a um desequilíbrio nos níveis de dopamina, que resulta em tremores, lentidão e rigidez dos movimentos.

2. Atenção e aprendizado: o neurotransmissor ajuda a destacar o que é importante no meio de tantas informações recebidas pelo cérebro no dia a dia, de acordo com Baeta.

Também participa da formação de memórias associadas a recompensas (vou explicar melhor essa parte abaixo).

3. Regulação do humor: níveis normais de dopamina estão ligados a sentimentos de motivação, vitalidade e interesse pela vida, acrescenta o neurologista.

Alterações nesse sistema estão associadas a quadros de depressão, vícios e esquizofrenia.

4. Sistema de recompensa e motivação: essa é a função que desperta o interesse de muitas pessoas —e da ciência também. A dopamina ajuda a identificar experiências boas e estimula a repetição de comportamentos que trazem algum tipo de benefício.

O sistema de recompensa é, em sua essência, um mecanismo de sobrevivência presente nos animais. Podemos falar em três grandes aspectos que são comuns a todas as espécies: sede, fome e reprodução.

  • É assim: um animal com sede vai buscar água. Ao encontrar, fica saciado e se sente bem. Isso faz com que ele repita a ação no futuro.

“Nos seres humanos, isso se torna um pouco mais complexo, porque há diferentes tipos de prazeres”, explica Cury. “A busca por esses prazeres pode ser algo normal, fisiológico, ou pode ser exacerbada. Quando esse sistema é hiperativado, acontece a impulsividade, a busca exagerada por prazer.”

Muitos dizem que a dopamina é a molécula do prazer, quando, na verdade, ela é a molécula do “mais”. Sua função principal não é proporcionar prazer ou felicidade, mas gerar a expectativa e a motivação para buscar recompensas futuras.

  • Ela começa a ser liberada antes mesmo do prazer. Pense na sensação de quando você é criança e está em uma excursão, a caminho de um parque de diversões. A animação e a ansiedade estão lá, e o ônibus ainda nem chegou ao destino.

Há um aspecto curioso da dopamina, porém: ela precisa ser constantemente alimentada pela novidade. Cada experiência aumenta nossa tolerância ao estímulo: quanto mais nos entregamos a determinada recompensa, menos prazer obtemos com ela.

  • Voltando ao exemplo anterior: se você frequentar o mesmo parque de diversões toda semana, a emoção e a expectativa vão aos poucos diminuindo —assim como os níveis de dopamina.

E tem mais: esse neurotransmissor gosta da chance de erro. Quanto mais incerta é a sua conquista, mais dopamina será liberada quando você a alcançar.

  • Se você já ganhou algum sorteio, sabe do que estou falando. Às vezes, o prêmio nem era tão legal, mas a emoção vem de ser sorteado entre muitas pessoas.

Esse mecanismo cerebral, na maioria das pessoas, funciona de maneira equilibrada. Não é bom ter dopamina demais, nem de menos: o excesso e a deficiência podem ser prejudiciais.

  • A falta está relacionada à doença de Parkinson, à depressão, à apatia, ao transtorno de déficit de atenção (TDAH) e à hiperatividade.
  • O excesso, por sua vez, está associado à esquizofrenia, a comportamentos de risco, a vícios, a compulsões e à impulsividade.

E é aí que a questão comportamental entra em jogo. “A dopamina é um neurotransmissor fundamental para a espécie humana, mas, se exacerbado, pode levar à impulsividade, fazer a pessoa perder o controle sobre seus comportamentos”, explica Cury.

Algumas pessoas desenvolvem impulsividade em diferentes âmbitos: jogos de azar, compras, pornografia, videogames, comida, entre outros.

O mecanismo da tolerância pode levar a uma busca obsessiva, que resulta em cada vez menos prazer. Você precisa de cada vez mais compras para sentir-se satisfeito (ou cada vez mais ganhos nos jogos).

Por que alguns desenvolvem essa impulsividade e outros não? Fatores genéticos e ambientais afetam o equilíbrio dopaminérgico.

Algumas pessoas têm variações nos receptores ou transportadores de dopamina que afetam sua sensibilidade. Estilo de vida, envelhecimento, doenças neurodegenerativas e uso de drogas também podem desequilibrar o sistema, de acordo com Baeta.

Em resumo: você não precisa se preocupar com um eventual “vício em dopamina”, mas também não deve querer se livrar dela. Ela é essencial para a motivação e para novas descobertas e conquistas.

“Se você não tivesse dopamina, você não teria grandes descobertas na medicina, porque ninguém lá atrás teria motivação para descobrir uma vacina, para descobrir uma anestesia, para descobrir um antibiótico. Historicamente, as grandes ideias vieram de persistência”, relata Cury.

Na próxima edição, vamos entender o que realmente dá para fazer para manter esse equilíbrio de dopamina e, mais do que isso, como aproveitar todo o potencial dela em relação ao aprendizado, à motivação e à criatividade.


O que você precisa saber

Notícias sobre saúde e bem-estar

Nobel de Medicina de 2025. O prêmio vai ser dividido entre os pesquisadores americanos Mary Brunkow, 63, e Fred Ramsdell, 64, e o japonês Shimon Sakaguchi, 74. Os três desenvolveram trabalhos fundamentais para compreender a chamada tolerância imunológica periférica, um dos processos pelos quais o organismo consegue distinguir entre ameaças reais vindas de fora e seus próprios componentes.

Autismo precoce e tardio. O autismo diagnosticado em crianças pequenas tem um perfil genético e de desenvolvimento distinto do autismo que se manifesta mais tarde na infância e adolescência, segundo um estudo publicado na Revista Nature. O estudo analisou dados comportamentais e genéticos de 45 mil pessoas em todo o mundo.

Crise do metanol. O Ministério da Saúde informou nesta segunda (6) que há 17 casos confirmados de intoxicação após consumo de bebida alcoólica e outros 200 em investigação. O número inclui duas mortes confirmadas em São Paulo, além de outras 12 em investigação.

Autoria: FLSP

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