Desde o início da pandemia da Covid-19, há cinco anos, o Brasil vive uma crescente demanda por cuidados em saúde mental. Uma pesquisa do Datafolha de 2024 revelou que 10% dos brasileiros se sentem tristes, deprimidos ou sem esperança.
A demanda muitas vezes extrapola a oferta de cuidados. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, “atualmente, são 2.331 pacientes que estão sendo regulados para atendimento em psicologia no município”.
Em Pirituba, na zona norte da capital paulista, os moradores ganharam o reforço do Projeto Amigos da Comunidade (PAC), uma organização da sociedade civil que criou um equipamento chamado PAC Zen, voltado para o atendimento em saúde mental das pessoas da comunidade.
A ONG foi criada há 22 anos para criar impacto social na região, explica Rosane Chene, fundadora e diretora da ONG Projeto Amigos da Comunidade (PAC). “Hoje a gente assiste cerca de 1.250 famílias, isso dá em torno de mais 6.000 indivíduos, que cuidamos de várias maneiras”, diz. Para participar do projeto, as famílias devem morar na região.
A ONG tem assistentes sociais que visitam as famílias mensalmente, escutando suas principais queixas. Foi assim que perceberam, durante a pandemia, que uma das maiores necessidades era a saúde mental, potencializada pelas vulnerabilidades sociais.
Essa é uma das maneiras pelas quais as pessoas podem ser encaminhadas para o projeto, diz a diretora, além da parceria que eles mantém com a UBS da região, encaminhamentos de outras atividades que oferecem —como aulas de balé e futebol— e o acesso direto, que implica a passagem por uma triagem inicial.
Foi em uma das rondas das assistentes sociais do PAC que Jessica Peres, 34, conheceu o projeto e se interessou por ele, conta sua mãe, Maria Aparecida Ferreira da Silva, 62. Na época, o João Guilherme, 8, —filho de Jessica e neto de Maria— estava com problemas na escola e uma suspeita pré-diagnóstica de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).
Ele passou por médicos que descartaram a possibilidade e começou a frequentar o PAC Zen, onde fez as sessões de psicoterapia. “Ele mudou da água para o vinho”, conta a avó, que já suspeitava que o comportamento do neto era por conta do emocional.
Além dos três psicólogos contratados para o PAC Zen, há sete outros voluntários, que fazem atendimentos, e um psicopedagogo, que trabalha com o reforço escolar, trabalhando demandas de queixa escolar, como a de João Guilherme.
A fundadora da ONG conta que, a fim de dar conta da demanda, eles optaram por adotar o modelo de psicoterapia breve, que engloba dez sessões de psicoterapia. Além disso, eles também trabalham com psicoterapia em grupo e terapias holísticas, como reiki e constelação familiar.
Enfrentando o alcoolismo, Jessica se mudou com seus três filhos para a casa de Maria Aparecida e de seu marido, Clarindo da Silva, 64. Hoje, a avó afirma que todos da família estão envolvidos nas atividades do PAC, incluindo as sessões de terapia do PAC Zen.
Ela mesma está no fim do processo terapêutico individual, mas já participou das terapias em grupo e de outras atividades oferecidas pela ONG, que ajudaram ela também com a adaptação da nova rotina com a filha e os netos. “Eu adorei, não saio mais daqui.”, diz. “É bom que eu tenho contato com outras pessoas, melhora a vida da gente.”
Chene afirma que o objetivo da ONG é trabalhar com toda a família. “A gente começa pela criança, mas a gente vê que se a gente não cuidar da família, aquilo não vai se resolver. E a família vem, ela dá esse voto de confiança e ela vai chegando e a transformação vai ocorrendo”, conta.
Maria Aparecida diz que a ONG ajudou também com o direcionamento de sua filha para um Caps (Centro de Atenção Psicossocial), para que tivesse um acompanhamento especializado. Chene diz que, quando julgado necessário, o PAC realiza os encaminhamentos para o Caps mais próximo.
“E é muito necessário a gente conseguir minimizar o impacto negativo trabalhando em rede, [trabalhando em conjunto] com a escola, com os postos de saúde, os Caps, as casas de acolhimento e o conselho tutelar”, afirma.