Livro explora rituais e beleza sob perspectiva africana – 28/09/2025 – Equilíbrio

Ao começar a escrever o livro “Decolonizando Meu Corpo” (Fontanar), Afua Hirsch imaginava que ele seria um instrumento para ensinar aos outros o que ela havia compreendido sobre a intersecção entre corpo, beleza, ancestralidade e descolonização. Mas, durante o processo de escrita, percebeu que a obra era, antes de tudo, uma jornada interna com a qual precisava lidar.

Hirsch, escritora, locutora e jornalista de longa data, conduz no livro “uma exploração radical dos rituais e da beleza”, como indica o subtítulo da obra, lançada no Brasil em abril pela editora Fontanar. Tudo começou com o que ela batizou de “Ano da Adornação”, quando completou 40 anos, idade em que as pessoas, especialmente as mulheres, começam a se preocupar com o envelhecimento.

“Percebi que seria arrastada pela maré dessa ansiedade a menos que tomasse medidas ativas para escolher uma mentalidade diferente”, diz ela, em uma chamada de vídeo, exibindo uma tatuagem na mão direita inspirada em gravuras da cultura akan, grupo étnico de Gana, de onde é sua mãe, e da Costa do Marfim.

A marca no corpo, sua primeira, fez parte desse processo. Foi uma das mudanças que a fizeram enxergar o próprio corpo como um local de memória e ancestralidade. Ela registra essa transformação no livro, percorrendo rituais e questionando estigmas sociais. “O efeito geral tem sido transformador, mas acho que o que se transformou foi minha mente”, afirma.

Um dos estigmas abordados logo no início da obra é a menstruação. Hirsch criou para a filha um rito de passagem quando ela começou a menstruar —uma forma de celebração e de aprendizado sobre a escuta do próprio corpo, prática que já é mais presente nas novas gerações, mas que ela queria resgatar para si mesma. “Nossas ancestrais femininas desenvolveram todas essas maneiras de entender e trabalhar com nossos corpos, suas mudanças e estações”, diz Hirsch. Para ela, há uma lacuna de informações sobre processos naturais do corpo feminino como a menopausa e o ciclo menstrual.

No livro, a autora traz relatos pessoais como esse, além de experiências de suas viagens pelo continente africano, especialmente por lugares como Marrocos e Gana. Ela une suas vivências como ex-correspondente do The Guardian na África Ocidental para narrar tradições, encontros com pessoas e fatos históricos. Isso dá à obra um caráter menos de guia e mais de relato e pesquisa. “Não estou dizendo às pessoas o que fazer. Estou apenas fornecendo mais informações, porque, quanto mais informações você tem, mais pode fazer escolhas conscientes”, explica.

Ela conta, por exemplo, sobre um casamento em Gana, anos atrás, no qual a noiva exibia seus pelos do corpo sem constrangimento, o que a impressionou. “Quando vi a maneira como ela estava mostrando seus pelos, soube que não era um descuido”.

Esse foi um dos caminhos que a levaram ao conceito de beleza descolonizada, mas falar sobre identidade não é algo novo para ela. Hirsch escreveu “Brit(ish): On Race, Identity and Belonging” (“Brit(ish): Raça, identidade e pertencimento” em tradução livre), no qual ela fala sobre história negra, cultura e política no contexto britânico, de Senegal e Gana.

Ela reforça, no entanto, que não julga e nem culpa as pessoas que preferem remover os pelos ou que não gostam deles, mas ressalta que essa preferência provavelmente foi moldada socialmente, sobretudo no caso das mulheres, que são “penalizadas” por não seguirem os padrões estabelecidos. Ela fala por experiência própria: costumava achar que não gostava de pelos simplesmente por preferir a pele lisa, até perceber que aquela não era uma ideia natural. “Tive que começar do zero e descobrir qual era a minha verdadeira preferência estética”, diz.

Uma das principais críticas de Hirsch é sobre os padrões de beleza eurocêntricos impostos pelo marketing e pela mídia, que criam um “olhar colonizador” internalizado, mesmo naqueles que se dizem conscientes. “Não acredito que exista algo como beleza objetiva. É inerentemente subjetiva. Está nos olhos de quem vê, mas esses olhos foram moldados por valores sociais, pela história e pelo capitalismo”, argumenta.

A beleza descolonizada, portanto, vai além do físico. “A beleza descolonizada será uma mentalidade, um processo mental. Não acho que seja qualquer visual ou qualquer prática física específica”, diz. “É uma beleza na qual temos realmente o poder de tomar nossas próprias decisões e escolhas sobre o que achamos bonito e o que fazemos com nossos corpos”.

O desejo de Afua Hirsch é que as mulheres possam desfazer o que ela chama de “dano colonial” de seus corpos. Isso envolve valorizar o cabelo, o tom de pele, as curvas, a sexualidade, as tatuagens e adornos, até mesmo a escarificação. “Gostaria de mostrar o quanto perdemos. Isso é valioso. E as ações falam mais alto que as palavras”.

Autoria: FLSP

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