No México, mães buscam rituais antigos para parto – 24/09/2025 – Equilíbrio

 

Em uma manhã tranquila, Regina Llanes Granillo colocou suas mãos no corpo de uma nova mãe. Ela e outra parteira começaram uma sobada, uma massagem abdominal maia para ajudar os intestinos a se acomodarem novamente. Com óleo quente de lavanda e erva-cidreira, ela traçou círculos lentos no estômago, no intestinos e nos ovários.

Suas mãos pararam no umbigo, pressionando levemente, procurando o que ela chamou de “batimento cardíaco” —um pulso psíquico que, segundo ela, revelaria se a energia do corpo estava muito alta ou muito baixa.

O ritual foi uma homenagem não apenas à criança nascida meses antes, mas à transformação de sua amiga, Kay Nicte Cisneros García, em uma nova mãe: um nascimento dentro de um nascimento.

Em seguida, ela envolveu Cisneros com xales e a conduziu a um banho de infusão com ervas. Essas são o tipo de práticas de parteiras enraizadas em tradições e conhecimentos indígenas que um número crescente de mulheres no México está buscando, segundo especialistas.

Assim como mais mulheres têm procurado parteiras e doulas nos Estados Unidos e na Europa na última década, o interesse aumentou no México, inclusive na capital, de acordo com pesquisadores, especialistas em saúde e parteiras.

Na Cidade do México, as mulheres que vivenciam a experiência às vezes isolada da maternidade dizem que as tradições oferecem uma abordagem mais pessoal e significativa ao parto e aos cuidados pós-parto do que os centros de saúde, clínicas ou hospitais convencionais costumam oferecer.

As parteiras no México frequentemente têm uma visão crítica dos cuidados obstétricos convencionais, argumentando que os hospitais reduzem o parto e a saúde das mulheres a protocolos rígidos e intervenções desnecessárias, e retiram a autonomia das mulheres.

Em contraste, a parteira oferece uma prática ancestral e holística que centraliza as escolhas, emoções e circunstâncias das mulheres.

O “modelo médico dominante tem tratado a gravidez, menstruação, menopausa e outros processos como doenças a serem curadas, ou meramente processos físicos, quando não são”, disse Cisneros.

Ela observou que as mulheres estão cada vez mais buscando cuidados atentos não apenas ao corpo, mas “também às emoções e à dimensão espiritual, reconhecendo o parto e a maternidade como experiências físicas, culturais, sociais e emocionais”.

Até recentemente, a medicina moderna no México havia deixado de lado em grande parte as tradições mais antigas de parteiras. Alguns médicos dizem que algumas das práticas podem ser perigosas se substituírem os cuidados profissionais de um obstetra-ginecologista, especialmente em gravidezes complicadas.

Mas mesmo profissionais de saúde céticos reconhecem que, em comunidades remotas e rurais onde clínicas, hospitais e serviços sociais são escassos ou inexistentes, as parteiras tradicionais continuam sendo trabalhadoras essenciais de saúde na linha de frente. Há mais de 15 mil delas em todo o país, de acordo com dados do governo.

Alejandra Seligson, obstetra-ginecologista na Cidade do México, reconheceu o papel que as parteiras tradicionais desempenham, particularmente em áreas rurais, mas alertou que seus cuidados têm limites. Condições como pré-eclâmpsia, disse ela, requerem monitoramento próximo em ambiente hospitalar.

A triagem, segundo ela, é essencial. A parteira deve ser limitada a gravidezes de baixo risco para evitar colocar mães e bebês em risco ao lidar com complicações.

Ela argumentou que os cuidados obstétricos e a parteira tradicional deveriam coexistir, pois oferecem formas complementares de cuidado.

Amparo Calderón, 48, uma parteira tradicional de descendência maia que vive nos arredores da Cidade do México, disse que a percepção pública, especialmente no exterior, há muito tempo reduziu a parteira tradicional a imagens de mulheres indígenas realizando partos.

“Na verdade, ela carrega uma visão de mundo e filosofia ancestral muito mais ampla”, disse Calderón, observando que o número real de parteiras tradicionais pode ser subestimado, já que muitas permanecem não registradas no governo.

Mas nos últimos anos, a prática floresceu e encontrou novo terreno nas maiores cidades do país, acelerada pela pandemia.

Diante de hospitais superlotados e do medo de contágio, muitas gestantes recorreram a parteiras, que geralmente trabalham em casa ou em centros de parteiras conhecidos como casas de parteira. Elas buscavam o que diziam ser uma alternativa mais segura e íntima, lembrou Cisneros.

Cisneros, 26, treinou por quatro anos em um centro na capital e disse que a parteira oferece “uma abordagem mais digna, amorosa e respeitosa” à gravidez, ao parto e à maternidade do que o ambiente clínico típico.

No México, as parteiras geralmente se enquadram em três categorias: aquelas treinadas em universidades e instituições formais; aquelas consideradas independentes, como Cisneros e Llanes, que se formaram em programas administrados por organizações sem fins lucrativos e casas de parteira, que combinam treinamento obstétrico moderno com práticas tradicionais; e parteiras tradicionais, que se baseiam no conhecimento transmitido oralmente, muitas vezes em línguas indígenas.

O governo mexicano recentemente tomou medidas para reconhecer formalmente o papel da parteira na saúde das mulheres. Em março, emitiu um decreto que reconheceu formalmente o valor das parteiras na saúde das mulheres e disse que estabeleceria critérios para integrar a parteira aos serviços de saúde materna.

Autoria: FLSP
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