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Um artigo publicado esta semana na revista científica The Lancet Regional Health Americas conclui que não é possível correlacionar os índices de uso de máscara e a mortalidade pela Covid-19. O documento reanalisou e criticou os dados de um outro estudo que associa o uso de máscaras a altos índices de mortalidade durante a pandemia.
O artigo refutado foi publicado pelo periódico BMC Public Health no início de 2025 e escrito por Daniel Tausk e Beny Spira, que afirma que não é possível correlacionar os índices de uso de máscara e a mortalidade pela doença, mas destaca que encontrou associações significativas entre os fatores.
A principal crítica reside no que os cientistas chamam de “falácia ecológica”. O professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e colunista da Folha Bruno Gualano, um dos autores da reanálise, explica que esse conceito é quando “você olha para a média geral da população e tenta inferir, a partir desse resultado que você obtém com a média da população, um achado para o indivíduo.”
Segundo Gualano, o estudo inicial utilizou uma média fixa de uso de máscaras de todo o período de 2020 a 2021. Ao reprocessarem os dados utilizando médias móveis de sete dias, os pesquisadores descobriram que a relação é inversa: o uso de máscaras subia justamente após os períodos de agravamento da pandemia.
“A gente observa que o uso de máscara não é constante ao longo de todo o tempo da pandemia”, explica o pesquisador, complementando que a associação é inversa. “Não é que a máscara causa mortalidade, ao contrário. Aumenta a mortalidade, as pessoas usam mais máscara.”
Além da estatística, o estudo atual ressalta a falta de plausibilidade biológica na tese de que máscaras seriam perigosas. Enquanto existem evidências robustas de que máscaras de alta qualidade funcionam como uma barreira física contra o vírus, não há mecanismo biológico que explique como elas poderiam aumentar a mortalidade, conclui Gualano.
Artigos publicados em diferentes revistas científicas mostram que o uso de máscaras é uma ferramenta eficaz não apenas para reduzir a mortalidade, mas também a incidência de infecçõespor Covid-19 em nível global.
O novo artigo da The Lancet recomenda que o trabalho de Tausk e Spira seja desconsiderado por formuladores de políticas públicas, alertando para o risco de desinformação em futuras crises sanitárias. No dia 9 de dezembro, uma versão revisada foi publicada no artigo da BMC, com uma nota dos editores afirmando terem recebido críticas à metodologia, mas a essência da publicação continua a mesma.
Na época da publicação, a pesquisa que associa as máscaras ao aumento da mortalidade por Covid foi utilizada pela extrema direita brasileira como forma de legitimar o posicionamento político do grupo diante da pandemia, que criticava o uso de máscaras e vacinas.
O então presidente Jair Bolsonaro, em dia que o número de mortes por Covid atingiu o número 1.582 em 2021, alegou em live que o uso de máscaras era prejudicial para crianças e tinham efeitos colaterais como irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração e diminuição da percepção de felicidade.
Quando o estudo foi publicado, Bolsonaro escreveu em sua conta no X (antigo Twitter) que “só faltou a USP se desculpar”. A menção à Universidade se dá pelo fato dos autores do artigo serem vinculados à ela —Tausk ao Departamento de Matemática e Spira ao Instituto de Ciências Biomédicas— e ele ter sido veiculado como “estudo da USP”.
Gualano, também vinculado à Universidade, afirma que todos os profissionais vinculados à instituição possuem autonomia científica e que um artigo não reflete o posicionamento da universidade como um todo.