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Há dois meses, se alguém levasse picada de cobra ou sentisse mal-estar depois das 23h na comunidade de Anã, no Pará, precisaria pegar 2h de barco até o posto de saúde mais próximo —torcendo para o rio estar cheio. É que, depois desse horário, não tinha mais energia elétrica ali.
Essa história mudou em outubro, quando a UBS (Unidade Básica de Saúde) que fica dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns se transformou em UBS da Floresta, apelido cunhado pelo Projeto Saúde & Alegria e pelo seu fundador, o médico Eugenio Scannavino Netto.
“Tudo começou por causa das vacinas”, lembra o paulistano que se mudou para Santarém (PA) nos anos 1980. “Aqui na amazônia, vacinas são transportadas de barco, no isopor com gelo, para comunidades remotas. Em Anã, não tinha geladeira, o teto não tinha forro e os remédios estragavam com o calor.”
Com base em sua experiência na região, Scannavino desenhou com ribeirinhos, prefeituras locais e IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) um “kit floresta” para postos de saúde em áreas remotas.
O kit inclui sistema de energia solar off-grid ou híbrido (solar mais diesel), internet via satélite, geladeiras para conservação de vacinas e medicamentos e equipamentos essenciais para a atenção primária —termômetro, oxímetro, nebulizador, eletrocardiógrafo digital, desfibrilador, autoclave (para esterilizar), sonar, kits de emergência, oxigênio, materiais para remoção e kits para agentes de saúde e parteiras.
“É bonito demais ver grávidas ouvindo o coraçãozinho de seus nenês com o sonar fetal. É tecnologia de ponta, na ponta, adaptada com as comunidades”, resume Eugenio.
A UBS de Anã é uma das 24 previstas com investimento de R$ 10 milhões da Fundação Banco do Brasil, que chancela e financia tecnologias sociais pelo Brasil. Duas unidades foram inauguradas neste mês na ilha do Marajó (PA). Até o final deste ano, serão 12 postos de saúde reestruturados na amazônia.
Em novembro, Scannavino acompanhou a reinauguração em Anã durante a COP30, em Belém, na companhia do ministro da saúde Alexandre Padilha.
O Ministério da Saúde anunciou em novembro investimento de R$ 9,8 bilhões em ações de adaptação climática no SUS. O valor inclui a construção de novas unidades de saúde e a aquisição de equipamentos resilientes às mudanças climáticas.
“A UBS da Floresta faz parte da estratégia de adaptar o SUS para cuidar das populações mais impactadas pelas mudanças climáticas, e o Saúde & Alegria é o parceiro perfeito para que isso se desenvolva com mais força na amazônia”, disse o ministro à Folha.
Segundo Padilha, R$ 212,5 milhões do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) serão destinados a 443 obras, veículos e equipamentos na região amazônica.
“Essa tecnologia social de como organizar a atenção à saúde, construída a partir da realidade local, será referência para o que estamos construindo em toda a amazônia brasileira”, acrescentou o ministro.
“A UBS da Floresta faz parte da estratégia de adaptar o SUS para cuidar das populações mais impactadas pelas mudanças climáticas”
O modelo proposto pela ONG inclui formação de profissionais e readequação das estruturas dos postos de saúde. Anã, por exemplo, ganhou reforma geral, com instalação de cozinha, banheiro e espaço de acolhimento para crianças —demandas que vieram da comunidade.
“A gente esterilizava os materiais na panela de pressão”, lembra a enfermeira Larissa Miranda dos Santos, 29, que trabalhou dois anos sem banheiro na UBS e vibrou com a possibilidade de ter um ventilador na sala de atendimento.
Larissa conta com um auxiliar de enfermagem e dois agentes comunitários de saúde para dar conta de 350 moradores. Ela traduz os efeitos do clima nessa população: “Quando o rio seca, vêm os casos de diarreia e vômito. E, quando tem queimada, vêm as doenças respiratórias.”
O projeto também apoia a gestão de indicadores de saúde, com informações dos pacientes transmitidas em tempo real ao sistema do SUS. Antes, sem computador e conexão, os prontuários iam de barco para Santarém, uma vez por mês.
Comunidades remotas como Anã contam com visitas de embarcações equipadas e com médicos a bordo a cada 40 dias. São as Unidades Básicas de Saúde Fluviais, inspiradas no Barco Hospital Abaré, do Saúde & Alegria.
O projeto criado há 20 anos no rio Tapajós virou política pública e, hoje, em torno de cem unidades navegam pela amazônia e pelo pantanal.
Para a Fundação Banco do Brasil, é justamente a conexão com os ribeirinhos que sustenta o projeto no território. “A população cria junto, se apropria da UBS da Floresta e faz o controle social para que ela funcione a longo prazo”, diz Gilson Lima, presidente em exercício da fundação.
Ao resolver um problema de saúde local, com gestão da comunidade, de fácil replicação e baixo custo, essas unidades básicas de saúde se mostram tecnologias sociais escaláveis.
“Acreditamos na replicação desse modelo em outras comunidades do norte do país”, afirma Lima.
O Pará concentra sete das dez cidades com pior índice de qualidade de vida na amazônia, segundo o Índice de Progresso Social, realizado pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) em 2025.
Para Eugenio Scannavino, os ribeirinhos são expostos a doenças simples que vão se agravando pelas distâncias e pela falta de acesso à saúde nessas áreas remotas —e enfrentar isso é desafio coletivo.
“São pessoas que dependem do meio ambiente para viver, verdadeiros heróis que defendem a floresta. Se a amazônia cuida da saúde do planeta, quem cuida da saúde desses povos?”